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"Só temos o desejo de fazer a obra de Deus" diz membro do grupo Gladiadores do Altar da IURD

Na semana passada, vídeos que mostravam apresentações do grupo de jovens em templos evangélicos em diversas cidades brasileiras causaram ...

Na semana passada, vídeos que mostravam apresentações do grupo de jovens em templos evangélicos em diversas cidades brasileiras causaram polêmica nas redes sociais. Usando camisas verde-musgo, jovens marchavam para o interior dos templos e entoavam uma oração em tom marcial.
Ao serem perguntados pelos pastores "o que queriam", os autodenominados gladiadores respondiam, com uma saudação militar: "o altar! o altar! o altar!".

Em seu perfil no Instagram, o deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ) descreveu o grupo como "milícia" e comparou a iniciativa da Iurd a grupos radicais islâmicos.

"Quando começarão a executar os 'infiéis' e ateus e empurrarem os homossexuais de torres altas como vem fazendo o fundamentalismo islâmico no Oriente Médio?"

Páginas e postagens relacionadas aos Gladiadores do Altar no Facebook foram inundadas de comentários que os comparavam a milícias nazistas e ao grupo jihadista autodenominado "Estado Islâmico".

Marcelo foi o único entre gladiadores e pastores contactados pela BBC Brasil em diversos Estados – e também em outros países – que se dispôs a falar sobre o grupo. Os demais chegaram a responder ao contato, mas se recusaram a dar entrevistas.

No entanto, o jovem pediu para não ter seu nome nem sua cidade divulgados, por temer retaliações. "Não quero me prejudicar, nem prejudicar a Igreja Universal. As pessoas que eu conheço não vão gostar (da entrevista)."

Perguntado sobre o motivo de não ser permitida a divulgação de detalhes sobre os Gladiadores do Altar, Marcelo hesitou e respondeu que "preferia não comentar sobre isso".
Em entrevista por telefone, ele se mostrou indignado com os comentários e afirmou que "tudo o que esse Jean Wyllys falou é mentira".

"Primeiramente, eu não gosto desse cara, ele sempre quer posar de bacana. O nosso trabalho na Universal não é nada disso que esse babaca falou", disse. O motorista, no entanto, admite que não chegou a ler os comentários de Wyllys, apenas uma nota da Igreja Universal em seu site, que respondia às declarações do deputado.

A instituição chamou de "interpretações absurdas" os comentários em portais e redes sociais e afirmou que Wyllys uniu "seu ódio à burrice motivada e fez uma avaliação sobre um projeto do qual nada sabe a respeito, e sequer procurou saber antes de publicar tal injúria".

'Palavra de fé'

Marcelo diz ter ingressado no Gladiadores do Altar em sua cidade no início de janeiro. "Nosso trabalho na Universal é o de ajudar as pessoas que mais necessitam, ou seja, aquelas pessoas que estão sofrendo, como um dia eu sofri e a Universal me ajudou muito."

Ele já fazia parte da Força Jovem Universal, grupo da Iurd que realiza atividades religiosas e de socialização com jovens que eram usuários de drogas. "A gente trabalha com jovens que estão desacreditados na sociedade", afirmou.

De acordo com o rapaz, os Gladiadores do Altar são "jovens sendo preparados para futuramente ser pastores". Por isso, segundo ele, as mulheres não podem participar do grupo, já que a Igreja Universal não permite que mulheres se tornem pastoras.

Marcelo não sabe afirmar, no entanto, quais serão os próximos passos para que ele se torne pastor.
Em nota à BBC Brasil, a Igreja Universal disse que o programa procura "auxiliar os jovens que se sentem vocacionados para o trabalho missionário" e que já são 4,3 mil participantes em todo o Brasil – todos homens com até 26 anos de idade.

As reuniões do grupo acontecem todos os domingos. Nos encontros, segundo Marcelo, "o pastor dá uma palavra de fé para nós".

O participante não soube explicar o porquê de a apresentação registrada em vídeo se assemelhar a rituais militares, mas disse que o mesmo ritual é feito durante os encontros. No início das reuniões, segundo Marcelo, os membros do grupo fazem exercícios de aquecimento. Questionada sobre o motivo, a Igreja Universal não respondeu.

A Iurd afirma que o uniforme usado pelos gladiadores consiste apenas da camisa verde-musgo vista nas apresentações, que contêm os símbolos do grupo e da Força Jovem Universal.

Marcelo diz, no entanto, que o resto da indumentária também é padronizada – mas longe de coturnos e camuflagem militares, os "gladiadores" devem usar calças e sapatos sociais pretos.

O ritual registrado nos vídeos polêmicos era, segundo a instituição, uma apresentação do projeto, com "coreografia ensaiada para marcar festivamente a ocasião". No entanto, a Universal afirmou que eles não acontecerão novamente em nenhuma das cidades. Marcelo disse não ter sido informado sobre a decisão.

No último domingo, o encontro de seu grupo aconteceu normalmente.

Preconceito e cautela

Depois que a Igreja Universal do Reino de Deus divulgou nota condenando as críticas à apresentação dos Gladiadores do Altar, diversos vídeos e comunidades sobre o tema foram deletados do Facebook.

A instituição afirmou que os vídeos foram tirados do ar porque foram "mal interpretados por algumas pessoas preconceituosas" e chamou de estúpidas as comparações com grupos nazistas e jihadistas.
Para o professor da UFRGS Marcelo Tadvald, doutor em Antropologia Social e especialista em estudos da religião, houve, de fato, uma "leitura apressada" dos vídeos, motivada pelo preconceito em relação à Igreja Universal.

"Existe uma má vontade dos setores mais progressistas com evangélicos, principalmente com a Igreja Universal. Qualquer coisa que eles façam vai gerar algum tipo de debate e crítica. Ao mesmo tempo, a Iurd dá margem a que essas posições se radicalizem a partir de iniciativas como essa performance, em um momento como esse", disse à BBC Brasil.

"Tem uma frase que eu gosto muito: não podemos combater a intolerância com intolerância. E também não podemos combater algo que ainda nem sabemos se é intolerância dessa forma. É um terreno complicado e é um grande desafio. Gostamos muito de exaltar a pluralidade e a multiculturalidade, mas parece que isso tem limites. E o que determina esse limite?"

O ritual escolhido para a apresentação dos jovens – camisetas verde-musgo, marcha e continência – contribui para o "choque" nas redes sociais e para a associação com "fascismo" em um momento em que "a sociedade tem voltado muito a atenção ao fundamentalismo religioso", de acordo com o professor.

Tadvald, no entanto, considera exagerada a ideia de um "exército fundamentalista" evangélico, e lembra que há iniciativas semelhantes dentro do cristianismo, como os Legionários de Cristo, grupo católico criado no México em 1941.

"Neste momento, acho que isso é um exagero. Mas a questão principal, que é preciso acompanhar, é como esses jovens (os 'gladiadores') perceberão essa atividade. Em um dos vídeos, o pastor conclama os jovens a 'entregar a vida ao combate do mal'. Tudo bem, mas no que consiste esse mal?", indaga.
"Sabemos que a Igreja Universal, assim como outras denominações evangélicas – mas nem todas, é bom que se diga – promove práticas que reconhecemos como intolerância religiosa - contra religiões afro - e também social - contra grupos como homossexuais e até mulheres."

"A Igreja diz que este é um grupo ligado à Força Jovem, que promove atividades culturais e sociais, e eu acredito nisso. Mas alguns grupos fundamentalistas começaram de maneira estruturada a partir de uma liderança religiosa e depois fizeram interpretações próprias e tomaram iniciativas próprias. Será que a igreja tem um controle absoluto sobre isso? Não quero ser alarmista, mas é de se pensar."

*A pedido do entrevistado, seu nome foi trocado.

De BBC Brasil

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